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Pistas de El Salvador

Pense num prazer é fazer a Barca do Fia! Digo isso porque o espírito de toda a turma sempre vem em altas “vibes”. Nossa passagem por Punta Mango, no mês de agosto, não poderia ter sido melhor. Pegamos altas ondas, demos muitas risadas e aprendemos bastante.

Fazer uma trip já pré-marcada não é garantia de sucesso. Se olharmos por esse caminho, o mais garantido é ver o swell, comprar a passagem e se mandar. E principalmente quando se trata de América Central. Você sai do Brasil e ainda faz o surfe no fim de tarde. 

Para El Salvador, esse era o nosso plano: pegar o fim de tarde.

A sorte estava do nosso lado e o swell se encontrava subindo. Infelizmente, como em algumas vezes para aquela área, nosso voo atrasou e perdemos o surfe. Só chegamos no último raio de luz, mas ainda a tempo de ver o que nos esperava para o dia seguinte. 

Os relatos de outros hóspedes em nosso hotel era de que o pico do swell seria à noite ou em nossa primeira manhã de surfe.

No jantar, bateu aquele mix de felicidade e adrenalina, pois os integrantes da barca iam de aprendizes a nível médio alto.

Edney Rodrigues de Farias, engenheiro civil, 45 anos, vindo de Floripa, foi o primeiro a entrar no pico comigo. Ainda estava clareando quando varamos a forte arrebentação com ondas massudas de 4 a 6 pés. Tentamos acertar o timing das séries, e após ligeiro sufoco, já estávamos dando braçadas para a longa remada.

Já Jorge Sousa, empresário e pai de Antonio (estudante de apenas 14), não teve a mesma sorte e naquele momento levou a série na cabeça e não conseguiu varar. 

Até então, o que mais relatara para a galera era que ali cada um sabia de seus limites e estávamos na ocasião para nos divertir e aprender, ninguém poderia se botar pressão para sair da zona de conforto e a empreitada virar um estresse. Mas é claro que a pilha positiva sempre viria em forma de incentivo.

Para Antônio, aquilo ali estava fora de cogitação, da mesma forma que Roberto, professor de 42 anos e que viria desde Belém em uma grande jornada até Punta Mango. Após a distância do shore break para o lineup, ao chegar próximo da primeira série, eu e Edney recebemos o cartão de visitas, duas ou três ondas acima dos 6 pés rodaram secas, em forma de double ups e longas à nossa frente.

Para mantermos os padrões de segurança, pois ali não sabíamos o real tamanho do mar, remamos mais ao outside, pois não conhecíamos a onda e não sabíamos exatamente o ponto do drop. 

Havia inaugurado a session com uma prancha 6 pés com 6 canaletas e bastante volume, pois uso esse artifício pra poder ter pranchas menores na capa. Em uma 6 pés, uso volume de uma 6’4’, 6’6”, e isso me facilita a vida, já que em trips como essa fica complicado levar mais que três pranchas devido às regras das companhias aéreas.

A primeira onda foi com pressão, e depois de um passadão e um rasgadão, já estava longe.

Não demorou muito pra que Edney pegasse a sua e quebrasse o gelo. Foi um mix de alegria quando a adrenalina foi descarregada.

Com a entrada de um brasileiro que estava no pico havia alguns dias, fomos melhorando nosso posicionamento, já que ele se situava mais pra baixo do pico. 

Por volta das 6:30 da manhã, outra galera foi chegando, como também uns dois barcos provenientes de Las Flores.

Neste momento, aparece também o Jorge com sua fish 6’0” quatro quilhas e carregada de volume. Catarinense de Joinville, Jorge, após a primeira tentativa de varar a arrebentação, decidiu buscar outro caminho e entrou rente às pedras de Punta Mango e apareceu no outside para nos fazer companhia.

Aos poucos foram chegando mais integrantes da barca. Daniel Lima, 37 anos, lojista do ramo de surf skate (Session Store) e Tiago Gazola, 37 anos, proprietário de loja de informática, ambos de Criciúma. Na sequência, juntou-se a nós Eric Meyer, morador e frequentador dos picos de Itajaí.

O surfe rolou solto e nossa galera aos poucos ia se soltando. Dava pra ver a alegria da turma a cada drop completado. Que sessão clássica para a nossa chegada… O pico do swell parecia ser naquela manhã. O vento, naquele dia, começou a soprar a brisa de maral lá pelas 9:30, quando todos já estávamos exaustos. Imagina chegar ao pico, alguns fora do rip e outros cansados da própria viagem e pegar logo um marzão?

O café da manhã era muito bem vindo. O descanso foi justo, e ao descansarmos do almoço, fomos todos pra água.

Passamos a montanha que separava nosso hotel do pico e buscamos apoiar Antônio a surfar na espuma do inside. Entrei com ele e seu pai para poder encorajá-lo, mas a corrente estava forte, e mesmo se tratando de espumas, estava complicado para o moleque. No entanto, valeu a tentativa, pois o mais importante era todos estarem ali se divertindo dentro de suas possibilidades e cada passo, por menor que fosse, tratava-se de evolução.

O vento começava a acalmar e um a um fomos entrando, incluindo o carioca Marcelo Sarmento, coordenador, professor universitário e produtor de eventos, 42 anos. 

Naquele momento, a galera já estava mais solta, e a cada vez mais, mais ondas eram completadas e eu procurava analisar as performances de cada um para a noite começar a dar uns toque sutis. E foi isso que fizemos, um belo rango, algumas geladas e muitas histórias do intenso dia de surfe.

Nosso hotel tinha uma vista maravilhosa e privilegiada. Ainda escuro, na manhã seguinte, avistávamos as espumas correndo. Era sinal que o swell se mantinha. À medida em que ia clareando, avistávamos as lindas séries e constatávamos que as condições eram de um leve declínio. Ótimo, e na medida para a galera se soltar ainda mais. A xícara de café só aumentava nossa pilha e logo já estávamos dando nossa longa remada mais uma vez rumo ao lineup.

Para aquela manhã, alguns trocaram de prancha e outros mantinham seus tamanhos. Aconselhava para aqueles mais fora de forma a usar uma prancha maiorzinha, pois com alguns barcos chegando de Las Flores, um leve crowd se apresentava e prancha maior e com mais volume traduzia-se em mais ondas surfadas. Claro que neste quesito se manobrava menos, mas era uma oportunidade também para que quando o mar baixasse e diminuíssem o tamanho da prancha, a diferença seria sentida em melhores performances, pois ficariam mais soltos. 

E foi isso que aconteceu para quem usou este artifício.

A session foi longa e o dia foi repetido. No fim de tarde um pouco balançado, teve mais surfe e mais confiança. A mesma alegria dobrou a noite na ansiedade pro dia seguinte, que, ainda um pouco menor, fez todos aumentarem a confiança e fazerem a festa em ondas de até 4 pés com algumas maiores.

Quando chegamos a Punta Mango, logo recebemos a visita de um fotógrafo local. Garoto gente boa, chamava-se Javier Zelaya. O cara passava a session fazendo nossas fotos e logo após o café ja se encontrava no hotel para que todos vissem suas performances e já rolava aquela negociação, compra do material capturado.

Javier também comandara imagens terceirizadas e nos trouxe seu amigo videomaker Misael. Tanto as fotos quanto as imagens em vídeo fizeram a galera delirar e manter todos bem ocupados nos momentos de descanso. Era um tal de analisar a imagem e de postar nas mídias sociais, e, é claro, eu também não fugia da regra.

Nosso quarto dia foi de marola e surfamos o beach break na frente do hotel. Fizemos umas imagens com câmera aquática e foi bem divertido. Ali era uma ocasião para Antônio se soltar mais, como também para Roberto praticar seu frontside, já que nas direitas de Punta Mango dizia que estava sentindo um pouco de dificuldade em desenvolver seu backside. 

A luz de fim de tarde, como sempre, estava incrível.

No menor dia decidimos conhecer Las Flores. E realmente por lá estava pequeno, maré enchendo e ondas abaixo da cintura. Mesmo assim, apesar do ligeiro crowd, deu pra brincar e sentir que a onda ali também era boa.

O grommet Antônio fez a mala e alguns semi atropelamentos ocorreram, fazendo a turma rir muito quando vistas imagens posteriores. Marcelo Sarmento quebrou a valinha com minha prancha emprestada. Com quilhas S-wings, ficou solto nas marolas.

A trip era rápida, apenas uma semaninha. Pra nossa felicidade, um novo swell chegara no dia de nossa partida. Naquela manhã, as performances já haviam melhorado muito. Todos soltos nas ondas de até 4 pés e terral bonito. Eric e Thiago pegaram minha fish 5’5” e sentiram o gosto do que era usar uma prancha diferente naquelas condições. Surfei com a prancha 5’10” do Eric e também me diverti. O cara é mais alto e pesado que eu, logo sua tabla com volume pra meu peso corria por cima d’água.

O dia foi bom pra fecharmos a viagem. Todos evoluíram nitidamente. Alguns se cobraram mais e outros ficaram mais relaxados, mas o que ficou foi a vibe de uma galera que, sem se conhecer, saiu da barca como grandes amigos. E é aquela coisa, mais um grupo de Whatsup com resenha garantida e espaço de sobra para novos encontros.

Agradeço a todos que foram nesta Barca do Fia pra El Salvador e mal posso esperar pela próxima. Gracias, amigos!